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segunda-feira, 16 de março de 2009

7º dia: Mandem rezar uma missa

Existem explicações sobre o porquê parar de beber o sagrado líquido ser algo de dificuldade extrema. Assim que o cérebro assimila a informação "Aqui há uma oportunidade de tomar Coca" ele aciona os mecanismos responsáveis pelos sentimentos de recompensa e alegria. O mesmo acontece conosco, que paramos de tomá-La. Em nós, porém, após essa informação ser assimilada e acionar os seus respectivos efeitos, outra é enviada "Erro 2622: No atual momento, nenhuma oportunidade de tomar Coca é possível". Tal mensagem causa depressão repentina e questionamento do próprio código moral. Portanto, perguntar-se "Por que continuo com esse ritual de auto-flagelação?", embora não possua uma resposta racional aparente, é normal durante o processo de abstinência.

Esclarecido o sofrido processo que ocorre em minha cabeça em menos de um segundo toda vez em que sou forçado a negar um gole do néctar negro, relatarei alguns casos em que passei pelo referido tendo que abusar da minha força de vontade para não trair o movimento refrescando-me com a bebida da alegria.

O primeiro deles ocorreu sábado último, na casa de um amigo. O plano era chamar algumas pessoas para serem felizes jogando Wii. O console da Nintendo é extremamente eficaz como catalisador social e em apenas umas partidas de Mario Kart muitos tinham sorrisos estampados em seus rostos. A madrasta do anfitrião, entretanto, notou que faltava algo àquela cena para que a felicidade fosse, de fato, real. Enquanto eu batalhava para que Diddy Kong fosse o grande vencedor, ouvi uma voz anunciando "Gente, que é isso. Esse calor e vocês aí? Tá aqui, uma Coca! Aproveitem que está ge-la-di-nha!" Confesso que a minha fé em Deus foi abalada naquele momento. Além de ter que recusar a bebida, era uma temperada com amor maternal. Minha consciência havia tomado a forma de dois patos Donald, um possuindo um tridente e outro com asas cheias de plumas, ambos tentando me convencer a beber. Porém, como Pinocchio sabiamente me ensinou, ouvir a sua consciência só o leva a ser engolido por uma baleia, e como meu nome não é Jonas, declinei a oferta.

No dia seguinte, ocorreu um evento do qual estava temeroso durante toda a semana. O almoço de domingo. Aqui em casa, é o único dia em que todos da família almoçam na mesa ao mesmo tempo. Talvez porque seja o dia em que ninguém trabalhe ou tenha aula, o fato é que para celebrar a união criou-se o hábito de ter um almoço mais elaborado e ela: a garrafa de dois litros de Coca. Meu pai achou estranho eu levar uma jarra de Tang de abacaxi para a mesa. Eu achei estranho sentir gosto de abacaxi enquanto tomava o conteúdo do meu copo e olhava aquela garrafona me encarando do centro da mesa. Senti-me mais ou menos como um padre que tem de rezar em um strip-club. Ou em uma sala do pré. Difícil concentrar-se em suas atividades com o fruto proibido ao seu redor. Não obstante isso, tive de passar o resto do dia com o empecilho de, toda vez que eu abria a geladeira, encontrar a garrafa quase cheia perguntando qual foi o motivo da rejeição.

Hoje, porém, fecha uma semana em que iniciei esse processo. Algo pra se comemorar? Talvez. O fato é que uma etapa importante foi superada e que, a partir de agora, a tendência é que tudo se repita em um grande ciclo de sofrimento. A vida é uma merda mesmo.